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Dominar o “batimento cardíaco” da máquina: guia de campo para ajustar a temporização do gancho rotativo
Quem trabalha tempo suficiente numa oficina de bordados acaba por ouvir “O Som”. É um crack-snap desagradável, seguido de silêncio. Normalmente é a agulha a colidir com o gancho rotativo porque a máquina perdeu a sincronização.
Problemas de temporização são uma das causas mais comuns de avarias “misteriosas”: pontos falhados sem lógica aparente, linha a desfazer-se de repente, ou agulhas a partir “do nada”. Quando a descida/subida da agulha e a rotação do gancho deixam de estar sincronizadas — por uma fracção de milímetro — a máquina cria caos em vez de bordado.
A boa notícia: a temporização não é magia; é geometria.
Como técnico com muitos anos de chão de fábrica, posso garantir que ajustar a temporização do gancho rotativo é uma competência base. Permite deixar de depender de assistência externa para cada falha e ganhar controlo real sobre a produção.
Este guia foca o “método dos 200°” — um ponto de calibração usado em muitas máquinas de bordar industriais. O objectivo é dividir o processo em passos seguros, verificáveis e fáceis de confirmar no local, para voltar a bordar com confiança.
Ferramentas necessárias para o ajuste de temporização
Antes de desapertar um único parafuso, é preciso preparar o “bloco operatório”. Temporização exige precisão, não força. Se a preparação for apressada, é fácil criar um problema novo enquanto se tenta resolver o antigo.
Kit essencial (mostrado no tutorial)
- Chave de parafusos Phillips: para a chapa da agulha e as tampas plásticas.
- Chave Allen / sextavada (hex): do tamanho correcto para os parafusos do colar do gancho rotativo.
Consumíveis “escondidos” (o que os profissionais usam)
Quem está a começar confia nos olhos; quem faz isto todos os dias confia em referências físicas.
- Agulha nova: crítico. Não afinar temporização com agulha usada. Uma micro-curvatura altera a leitura da folga.
- Papel dobrado/cartão fino: para usar como referência física da folga de 0,2–0,5 mm (aprox. duas folhas de papel).
- Lanterna frontal ou luz LED magnética: é necessário ver dentro da zona do gancho sem sombras.
- Taça magnética para parafusos: deixar cair um parafuso para dentro do chassis transforma um ajuste rápido numa intervenção longa.
Aviso: segurança mecânica
Desligar a máquina. Antes de rodar manualmente o eixo/volante, garantir que a máquina está sem alimentação. Com as mãos junto ao gancho rotativo, um movimento inesperado pode provocar ferimentos (agulha) ou cortes (ponta do gancho). Tratar a máquina como uma ferramenta eléctrica.




Fase 1: checklist de segurança antes de começar
- [ ] Energia: máquina desligada (sem alimentação).
- [ ] Agulha: agulha nova, direita e bem encaixada.
- [ ] Limpeza: retirar a caixa da bobina e remover cotão/fiapos e restos de linha na zona do gancho (detritos alteram a folga e podem simular desalinhamento).
- [ ] Visibilidade: luz directa sobre o conjunto do gancho rotativo.
- [ ] Ritmo de trabalho: reservar tempo sem interrupções. Não acelerar este ajuste.
Desmontagem do conjunto da chapa da agulha
Para observar a relação entre agulha e gancho, é necessário abrir a zona de trabalho. O ponto-chave é ver claramente a ranhura (scarf) da agulha — a zona rebaixada na parte de trás da agulha por onde a ponta do gancho passa.
Passo 1 — Retirar a chapa metálica da agulha
- Localizar os três parafusos que fixam a chapa metálica.
- Desapertar e guardar imediatamente na taça magnética.
- Levantar a chapa na vertical.
Verificação sensorial: deve ficar visível a abertura para a zona do gancho rotativo, sem a chapa a tapar a linha de visão.

Passo 2 — Retirar a tampa da caixa da bobina
- Localizar os dois parafusos da tampa plástica junto à zona da bobina.
- Retirar os parafusos e levantar a tampa.
Checkpoint: a vista deve ficar desimpedida para o corpo metálico do gancho rotativo e para o colar onde estão os parafusos de fixação.

Definir o ponto crítico de temporização: 200°
Temporização é responder a uma pergunta simples: “onde está o gancho quando a agulha está numa posição específica?”.
Nesta sequência, a referência é a marca dos 200° no volante/roda graduada do eixo principal.
Passo 3 — Colocar o eixo principal exactamente nos 200°
- Ir à roda graduada (normalmente na lateral da cabeça).
- Rodar manualmente até alinhar o indicador com 200.
- Parar exactamente no 200.
Porque 200°? Por volta dos 180°, a agulha atinge o ponto mais baixo. Ao começar a subir (até cerca de 200°), forma-se o laço de linha que o gancho tem de apanhar. Se o gancho chega cedo demais ou tarde demais, o laço não é capturado e surgem pontos falhados.

Diagnóstico: desalinhamento entre gancho e agulha
Antes de ajustar, confirmar o estado actual: o problema é mesmo temporização/folga?
Passo 4 — Inspecção visual
- Com a roda nos 200°, levar a barra da agulha à posição de costura conforme necessário. (Em muitas máquinas industriais, ao rodar o volante a barra da agulha acompanha automaticamente.)
- Observar a parte de trás da agulha.
- Regra de ouro: a ponta afiada do gancho rotativo deve ficar exactamente atrás da agulha, alinhada com a ranhura (scarf).
O que procurar na “ranhura (scarf)” Não é apenas o eixo da agulha. A ponta do gancho precisa de passar pela zona rebaixada para não tocar na agulha e, ao mesmo tempo, conseguir capturar o laço.
Se, aos 200°, a ponta do gancho aparece claramente à esquerda/direita da agulha (em vez de “escondida” atrás), a temporização está fora.


Nota técnica sobre variações entre marcas: Apesar de aqui se usar a referência dos 200°, alguns fabricantes podem indicar a verificação por “subida em mm” a partir do ponto mais baixo. Ainda assim, o princípio mantém-se: ponta do gancho alinhada com a ranhura (scarf) no momento em que o laço se forma.
Ajustar a posição do gancho rotativo e a folga
Esta é a parte mais delicada. Estão a ser controladas duas variáveis:
- Temporização radial: rotação (quando a ponta chega).
- Folga: distância agulha–ponta do gancho (quão perto passa).
Passo 5 — Confirmar a folga “doce” (0,2–0,5 mm)
A folga deve ser “o mais perto possível sem tocar”.
- Demasiado aberta (>0,5 mm): o gancho pode falhar o laço → pontos falhados.
- Demasiado apertada (a tocar): o gancho bate na agulha → rebarbas, linha a desfazer-se, agulhas partidas.
Teste táctil (verificação rápida): Com o gancho atrás da agulha, empurrar suavemente a agulha na direcção do gancho com a unha ou com a ponta de uma chave de parafusos.
- Se não mexe: provavelmente já está a tocar (mau).
- Se mexe demasiado: a folga é grande (mau).
- Zona correcta: sente-se uma flexão mínima — aproximadamente duas folhas de papel — antes de encostar.


Passo 6 — Libertar o gancho
- Identificar os três parafusos Allen no colar (anel de ligação do gancho ao eixo).
- Desapertar o parafuso #1. Rodar manualmente o eixo para expor o #2 e o #3 e desapertar cada um.
- Importante: não retirar os parafusos. Desapertar apenas o suficiente para o corpo do gancho poder rodar no eixo com alguma resistência controlada.


Passo 7 — Sincronização fina (alinhamento aos 200°)
- Voltar a colocar a roda graduada exactamente nos 200°.
- Manter o eixo fixo nessa posição.
- Com os parafusos desapertados, rodar manualmente o corpo do gancho.
- Alinhar: colocar a ponta do gancho centrada atrás da ranhura (scarf) da agulha.
- Confirmar folga: manter a folga de 0,2–0,5 mm.



Checklist de aperto: protocolo para não “desviar” o ajuste
Um erro frequente é acertar o alinhamento e, ao apertar, o gancho deslocar-se.
- [ ] Apertar ligeiramente o primeiro parafuso (sem forçar).
- [ ] Confirmar novamente os 200°.
- [ ] Confirmar novamente a ponta do gancho atrás da agulha.
- [ ] Apertar o segundo parafuso mantendo o conjunto estabilizado.
- [ ] Apertar o terceiro e, no fim, apertar os três de forma firme e uniforme.
Verificações finais e remontagem
Passo 8 — Verificação de integridade (antes de fechar)
Antes de voltar a montar as tampas:
- Rodar manualmente o volante num ciclo completo (360°).
- Ouvir: existe um tic metálico ou raspagem? Se sim, a folga está demasiado apertada — voltar ao Passo 5.
- Observar: a agulha não deve flectir visivelmente quando o gancho passa.

Remontagem
Voltar a montar a tampa plástica e a chapa metálica. Confirmar que não ficaram parafusos “a mais” na taça magnética.
Resolução de problemas (Sintoma → lógica → solução)
Se, após o ajuste, ainda surgirem falhas, usar esta grelha para orientar o diagnóstico. Em oficina, é comum confundir problemas mecânicos com problemas de processo (material, estabilização, montagem no bastidor).
| Sintoma | Causa mecânica provável | Causa de processo provável | Solução |
|---|---|---|---|
| Agulha parte (ruído forte) | Folga a 0,0 mm (a tocar) | Material espesso a alta velocidade | Repor folga dentro de 0,2–0,5 mm e reduzir velocidade conforme necessário. |
| Pontos falhados (intermitentes) | Gancho fora do ponto aos 200° | “Flagging” (material a levantar) | Repor temporização aos 200° e melhorar estabilização/apoio do material. |
| Linha a desfazer-se | Rebarba na ponta do gancho | Linha degradada | Inspeccionar a ponta do gancho e substituir/rectificar conforme aplicável; trocar a linha. |
| Temporização “foge” rapidamente | Parafusos do colar mal apertados | Vibração/choques na operação | Reapertar correctamente e rever manuseamento. |
Árvore de decisão: é temporização ou é o processo?
Antes de voltar a pegar na chave de parafusos, confirmar se o problema não está a ser “imitado” por instabilidade do material.
1) Teste de estabilidade
Cenário: a temporização foi ajustada, mas continuam pontos falhados em malhas elásticas ou peças volumosas.
- Diagnóstico provável: o material está a “flaggar” (a levantar com a agulha), impedindo a formação consistente do laço.
- Solução: reforçar a estabilização e a fixação.
- Nível 1: usar um estabilizador mais adequado ao material.
- Nível 2: considerar um bastidor de bordado magnético para uma pressão mais uniforme no perímetro.
2) Teste de eficiência de produção
Cenário: a máquina cose bem, mas perde-se muito tempo a alinhar peças e a apertar/soltar bastidores.
- Diagnóstico provável: fluxo de trabalho inconsistente.
- Solução: normalizar a carga e a tensão.
- Muitas oficinas usam uma estação de colocação de bastidores para máquina de bordar para repetir sempre a mesma tensão e posicionamento.
3) Cálculo do “custo de reparação”
Cenário: é necessário ajustar temporização com demasiada frequência e o conjunto mostra desgaste.
- Diagnóstico provável: desgaste acumulado ou máquina subdimensionada para o volume.
- Solução: ponderar substituição/upgrade.
- Pode fazer sentido procurar uma máquina de bordar comercial à venda mais adequada ao regime de trabalho.
Aviso: segurança com força magnética
Se optar por bastidores magnéticos para melhorar a estabilidade, ter em conta que os ímanes são muito fortes.
* Risco de entalamento: podem fechar com força. Manter os dedos afastados.
* Equipamento sensível: manter afastado de painéis/zonas sensíveis e de cartões magnéticos.
Resultados: como reconhecer que ficou bem
Ao confirmar com um teste de bordado:
- Som: a máquina deve trabalhar de forma regular, sem batidas metálicas.
- Formação do ponto: pontos consistentes, sem falhas aleatórias.
- Fiabilidade: o desenho deve correr sem quebras falsas de linha.
Dominar a “regra dos 200°” não é apenas reparar uma avaria — é proteger o planeamento de produção. Bordado de qualidade depende de três pilares: temporização mecânica correcta, picagem/digitalização adequada e montagem no bastidor consistente.
Continuar a bordar — e manter a máquina afinada.
Checklist final de operação
- [ ] Rotação manual: ciclo completo sem resistência/ruído.
- [ ] Arranque lento: começar a baixa velocidade no primeiro minuto.
- [ ] Padrão de teste: executar um padrão simples para validar a formação do ponto.
- [ ] Escuta activa: procurar ritmo regular, sem “cliques” de contacto metálico.
